Imaginem um cenário em que os Estados Unidos, que importam anualmente US$ 300 bilhões em petróleo, e têm um déficit em conta corrente de 3% do PIB, algo como US$ 450 bilhões, sejam não apenas autossuficientes em energia e equilibrados no balanço externo, mas exportadores líquidos de petróleo e gás e superavitários em conta corrente. Este panorama, impensável há alguns anos, acontecerá dentro de uma década, no máximo duas, segundo as últimas projeções feitas por agências governamentais e empresas da área de energia, como a ExxonMobil, Shell e BP.
A razão básica destas radicais transformações, dizem recentes matérias do “Financial Times”, é a viabilização comercial da produção de gás natural e petróleo extraído de rochas xistosas, shale oil & gas, acrescida em parte por outras fontes ditas não convencionais como depósitos de carvão (coal-bed methane), areias betuminosas (tight sands) e provavelmente hidratos de metano, esta última fonte aparentemente inesgotável, embora ainda não inteiramente dominada. Em um horizonte que vai até 2030, não haverá, dizem as previsões, grande aumento na participação de fontes renováveis (hidráulica, solar, eólica, biocombustíveis) na matriz energética mundial. A oferta total de energia, que crescerá quase 40% em relação ao nível atual, continuará naquela data atendida em grande parte por combustíveis fósseis, que cairão de 87% para 81%, embora o ritmo de crescimento das renováveis seja duas vezes maior no período examinado.
As fontes não convencionais para obtenção de petróleo e gás, que responderão majoritariamente pelo crescimento da demanda, são conhecidas há várias décadas, algumas exploradas desde a primeira metade do século passado, inclusive no Brasil onde, durante a 2ª Guerra Mundial, veículos rodaram com combustível produzido dos xistos de Tremembé e Taubaté, em S.Paulo. A novidade está na tecnologia, que com furos horizontais e o sistema de fratura hidráulica, eliminou a mineração, trabalhosa e cara, viabilizando os produtos. Apesar das preocupações com eventual contaminação dos aquíferos – que persistem, inclusive nos E.Unidos – cresce rápido neste país a obtenção do shale gas, deslocado por injeção, a elevada pressão, de grandes volumes de água e produtos químicos.
De tal forma a técnica é eficiente, que o preço do gás natural americano está no menor nível em muitos anos, as importações de gás natural liquefeito (GNL) praticamente cessaram, e em 2010 os E.Unidos ascenderam à posição de primeiro produtor mundial de gás natural, antes ocupada pela Rússia.
O “fracking” não revolucionou apenas o mercado de gás natural. A aplicação da mesma tecnologia ao shale oil produz petróleo bom, barato e americano. Como nota o “Financial Times”, as importações do produto no país já caíram aos níveis anteriores a 1990, e, surpreendentemente, as exportações neste momento representam 20% do total importado. Outra grande reviravolta acontece no mercado petroquímico – o etano contido no shale gas é agora obtido em larga escala, a preços competitivos, deslocando a nafta antes importada, e fazendo o país ser neste ano um exportador líquido de produtos petroquímicos, e um polo capaz de atrair novos investidores do ramo.
Ainda estamos muito próximos do início deste novo ciclo do mercado mundial de energia para que possamos avaliá-lo de forma definitiva. Na Europa, França e Polônia seguramente detêm grandes reservas de shale oil & gas, mas são países que assumiram posições opostas quanto às restrições ao novo sistema de produção. A China, com as maiores reservas mundiais já conhecidas, inicia agora o caminho do fracking, enquanto outros países avaliam o que têm e se preparam para a exploração, como a Argentina. Os números, entretanto, são de tal forma impactantes que, salvo algum desastre ambiental cada vez menos provável, parece certo que estamos diante de algo que veio para ficar, para revolucionar. Em nosso país, quanto mais cedo nos convencemos disto, melhor poderemos participar da bonança que está à vista.

Nenhum comentário:
Postar um comentário