
Setor têxtil: segmento foi um dos mais prejudicados pela concorrência externa
Setor perdeu vigor no ano passado e recuou 4,7%, puxado pelas perdas nos segmentos têxtil e de calçados.
O aumento das importações atingiu em cheio a região Nordeste, em especial a indústria local, cuja produção recuou 4,7% no ano passado, segundo dados da pesquisa industrial mensal divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Todos os estados nordestinos pesquisados, sem exceção - Bahia, Ceará e Pernambuco - acumularam resultados negativos ou estagnação.
A indústria mais prejudicada pela entrada das mercadorias estrangeiras foi a cearense. Isto porque o estado tem 45% de seu parque industrial apoiado na manufatura têxtil, vestuária e calçadista.
Juntas, estas três atividades tiveram quedas de até 25%. Os números negativos da equação não poderiam levar a um resultado diferente. A indústria em Fortaleza e interior recuou 11,7% durante todo ano passado, e 7,4% na comparação entre dezembro de 2011.
E esse resultado, claro, atingiu o crescimento da indústria nacional, que em 2011 beirou a estagnação - teve alta de apenas 0,3%. Das 14 regiões pesquisadas pelo IBGE, nove registraram taxas positivas na indústria, contudo, todos os resultados ficaram muito abaixo dos vistos em 2010.
"Além dos estados Nordeste, Santa Catarina também está entre os afetados pela entrada dos importados", afirma André Macedo, economista do IBGE responsável pela pesquisa, que aponta a forte valorização do câmbio como a "grande inimiga" da indústria.
De acordo com Macedo, apesar de representar maior participação sobre os estados nordestinos, a fraca produção têxtil em 2011 também foi vista em outras regiões.
O faturamento da atividade caiu 9,2% em 2011, mostra a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O desempenho negativo do Nordeste se contrapõe ao cenário encontrado na região em 2010.
Naquela ocasião, a indústria local cresceu 8,1%, segundo o IBGE, enquanto a cearense 9,1% - considerando a baixa base de comparação de 2009, ano marcado pelos reflexos da crise internacional.
"O crescimento do Nordeste nos últimos anos foi muito positivo ao país, mas já mostra desaceleração. Os atuais resultados servem de alerta aos setores têxtil e calçadista, que devem investir mais frente a concorrência dos mercados asiáticos", observa o professor de economia da Fundação Getúlio Vargas, Evaldo Alves.
Para o chefe do departamento econômico da CNI, Flávio Castelo Branco, medidas de estímulo à industria nacional, como o programa Reintegra e a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para carros com componentes majoritariamente nacionais, chegaram fora do "timing".
"Medidas como essa são importantes, mas demoram para serem de fato implementadas e a competição internacional não espera", diz. "Precisamos de medidas mais ágeis para garantir a competitividade da indústria nacional."
Outro estado com fraca produtividade na região em 2011 foi a Bahia. A queda de 4,4%, aponta o IBGE, está ligada ao apagão ocorrido em todo Nordeste em fevereiro passado, que afetou a indústria petroquímica (-7,5%) e de refino de petróleo (-9,6%) baiana - cerca de 55% da atividade industrial do estado.
"A perspectiva para o Nordeste neste ano pode ser mais positiva com o aumento do consumo por causa do forte reajuste do salário mínimo", afirma Júlio Gomes de Almeida, economista do Iedi. "Um câmbio mais favorável deve ajudar, mas a região não voltará a crescer ainda neste ano", prevê.
Rafael Abrantes

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