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do sucesso"
Por leonardo attuch
O engenheiro norte-americano Charles Vest comanda, há 16 anos, uma das principais grifes da educação superior e da pesquisa científica no mundo. Trata-se do Massachusetts Institute of Technology, conhecido como MIT, que tem um orçamento anual de US$ 2 bilhões – isso equivale a 40% do que o Brasil gasta com suas 55 universidades federais. Aos 65 anos, ele prevê descobertas científicas cada vez mais surpreendentes. “Veremos materiais desenvolvidos a partir de fontes biológicas e produtos com consumo mínimo de energia”, diz ele. Vest, que presidiu o MIT entre 1990 e 2004 e desde então é seu presidente emérito, diz que o sucesso das universidades americanas pode ser resumido numa palavra: meritocracia. É essa política de recompensas que tem sugado os melhores professores e alunos de todo o mundo para instituições como o MIT. Com espírito empreendedor, muitos deles acabam criando empresas avaliadas em bilhões, como Google, Yahoo e YouTube, ainda nas universidades. Em entrevista exclusiva à DINHEIRO, Vest aborda o modelo educacional americano e fala das oportunidades das próximas décadas. “O Brasil tem tudo para estar na vanguarda da pesquisa agrícola”, diz ele.
DINHEIRO – Por que as universidades americanas se destacam tanto em relação ao resto do mundo?
CHARLES VEST – Eu diria que, nos Estados Unidos, nós não temos um sistema perfeito. Embora as universidades sejam realmente muito boas, nós ainda temos falhas na educação primária e secundária. No caso do ensino superior, eu penso que a chave do sucesso foi a diversidade. Temos pequenas faculdades, grandes universidades, algumas mais focadas em tecnologia, como o próprio MIT, e assim por diante. Mas, ao contrário das instituições européias, que são muito hierarquizadas e onde os jovens são uma espécie de aprendizes dos professores mais experientes, nós desenvolvemos uma cultura mais aberta.
CHARLES VEST – Eu diria que, nos Estados Unidos, nós não temos um sistema perfeito. Embora as universidades sejam realmente muito boas, nós ainda temos falhas na educação primária e secundária. No caso do ensino superior, eu penso que a chave do sucesso foi a diversidade. Temos pequenas faculdades, grandes universidades, algumas mais focadas em tecnologia, como o próprio MIT, e assim por diante. Mas, ao contrário das instituições européias, que são muito hierarquizadas e onde os jovens são uma espécie de aprendizes dos professores mais experientes, nós desenvolvemos uma cultura mais aberta.
DINHEIRO – Como assim?
VEST – Os professores de universidades americanas têm mais liberdade para desenvolver seus próprios currículos e nós temos um sistema competitivo. Existe uma disputa muito forte pelos melhores professores e alunos, sejam eles americanos ou não. Além disso, nós conseguimos integrar com sucesso os sistemas de educação e de pesquisa. E um outro fator não menos importante é a filantropia. A tradição de doações é antiga e consolidada nos Estados Unidos.
VEST – Os professores de universidades americanas têm mais liberdade para desenvolver seus próprios currículos e nós temos um sistema competitivo. Existe uma disputa muito forte pelos melhores professores e alunos, sejam eles americanos ou não. Além disso, nós conseguimos integrar com sucesso os sistemas de educação e de pesquisa. E um outro fator não menos importante é a filantropia. A tradição de doações é antiga e consolidada nos Estados Unidos.
DINHEIRO – Há incentivos fiscais, não?
VEST – Sim, e eles são muito importantes. Isso ajudou a criar esse fenômeno de termos algumas instituições extremamente fortes, como é o caso do MIT. E há uma cultura de meritocracia aqui. É o mérito individual – e apenas isso – que define quem é admitido nas escolas ou quem recebe bolsas ou apoio para pesquisas. Dito isso, eu concordo com a afirmação de que as universidades americanas são as melhores, mas não deixo de apontar falhas que existem na formação básica.
VEST – Sim, e eles são muito importantes. Isso ajudou a criar esse fenômeno de termos algumas instituições extremamente fortes, como é o caso do MIT. E há uma cultura de meritocracia aqui. É o mérito individual – e apenas isso – que define quem é admitido nas escolas ou quem recebe bolsas ou apoio para pesquisas. Dito isso, eu concordo com a afirmação de que as universidades americanas são as melhores, mas não deixo de apontar falhas que existem na formação básica.
DINHEIRO – Mas a educação superior é a preparação final do estudante para o mercado. Essa excelência explica o sucesso empresarial de muitos ex-alunos?
VEST – Isso contribui para o sucesso deles. Mas é também muito importante lembrar que, desde o século XIX, as universidades americanas têm sido abertas aos alunos estrangeiros. E aqueles que vêm de outros países, em geral, são pessoas com muita ambição e espírito empreendedor.
VEST – Isso contribui para o sucesso deles. Mas é também muito importante lembrar que, desde o século XIX, as universidades americanas têm sido abertas aos alunos estrangeiros. E aqueles que vêm de outros países, em geral, são pessoas com muita ambição e espírito empreendedor.
DINHEIRO – Qual a proporção de estrangeiros no MIT?
VEST – Nos mestrados e doutorados, eles representam 40%. Na graduação básica, eles são 8%. Isso faz com que a média seja próxima de 25%. E há, inclusive, brasileiros.
VEST – Nos mestrados e doutorados, eles representam 40%. Na graduação básica, eles são 8%. Isso faz com que a média seja próxima de 25%. E há, inclusive, brasileiros.
DINHEIRO – O que países emergentes, como o Brasil, devem fazer para não expatriar os seus talentos?
VEST – Todos os países, evidentemente, devem buscar um padrão de excelência na sua educação superior. E o melhor caminho para isso é estimular a competição dentro do sistema. Muitos professores americanos ficam chocados quando visitam países europeus e descobrem que algumas escolas de lá nem sequer decidem quem elas admitem. Quanto à questão de perder ou não talentos, esse é, para mim, um falso dilema. Muitos dos alunos estrangeiros que vêm para escolas como o MIT, Harvard ou Stanford voltam para os seus países e abrem novos negócios lá.
VEST – Todos os países, evidentemente, devem buscar um padrão de excelência na sua educação superior. E o melhor caminho para isso é estimular a competição dentro do sistema. Muitos professores americanos ficam chocados quando visitam países europeus e descobrem que algumas escolas de lá nem sequer decidem quem elas admitem. Quanto à questão de perder ou não talentos, esse é, para mim, um falso dilema. Muitos dos alunos estrangeiros que vêm para escolas como o MIT, Harvard ou Stanford voltam para os seus países e abrem novos negócios lá.
DINHEIRO – O saldo, então, é positivo?
VEST – Um exemplo interessante é o da Índia. Esse é um país que, na minha avaliação, obteve vários benefícios com o aprendizado que seus estudantes tiveram em escolas americanos. Não por acaso, a Índia é hoje um dos principais pólos mundiais de empresas de ponta e eles conseguiram criar o próprio IIT, que é o India Institute of Technology, com apoio do Ocidente. Essas pessoas que vêm, voltam e se tornam líderes empresariais em seus países de origem. A minha tese é de que as pessoas devem ser livres para decidir o que é melhor para elas, principalmente onde querem estudar. A pior coisa a fazer é fechar as portas.
VEST – Um exemplo interessante é o da Índia. Esse é um país que, na minha avaliação, obteve vários benefícios com o aprendizado que seus estudantes tiveram em escolas americanos. Não por acaso, a Índia é hoje um dos principais pólos mundiais de empresas de ponta e eles conseguiram criar o próprio IIT, que é o India Institute of Technology, com apoio do Ocidente. Essas pessoas que vêm, voltam e se tornam líderes empresariais em seus países de origem. A minha tese é de que as pessoas devem ser livres para decidir o que é melhor para elas, principalmente onde querem estudar. A pior coisa a fazer é fechar as portas.
DINHEIRO – Por que, nas escolas americanas, as idéias se convertem rapidamente em bons negócios?
VEST – Essa é uma longa tradição. E dou um exemplo, que é o de Vannevar Bush. Ele não apenas foi um grande acadêmico do MIT, com pesquisas importantes na área atômica nos anos 30 do século passado, como foi um grande empreendedor. Lá, no MIT, por exemplo, nós também temos um concurso em que os alunos são estimulados a desenvolver um plano de negócios. Isso junta engenharia, ciência e administração. No fim, todos são julgados por pessoas da comunidade empresarial de Boston, onde fica o MIT.
VEST – Essa é uma longa tradição. E dou um exemplo, que é o de Vannevar Bush. Ele não apenas foi um grande acadêmico do MIT, com pesquisas importantes na área atômica nos anos 30 do século passado, como foi um grande empreendedor. Lá, no MIT, por exemplo, nós também temos um concurso em que os alunos são estimulados a desenvolver um plano de negócios. Isso junta engenharia, ciência e administração. No fim, todos são julgados por pessoas da comunidade empresarial de Boston, onde fica o MIT.
DINHEIRO – E qual é o prêmio?
VEST – Até o ano passado, o prêmio era de US$ 50 mil. Agora, elevamos para US$ 100 mil. É o dinheiro necessário para abrir um negócio. Engenharia e tecnologia são parte importante da educação. Mas saber empreender é a chave do sucesso. É o que faz a diferença. Os nossos alunos aprendem os meandros da ciência, mas também técnicas de administração, marketing e comunicação. E tudo em sintonia com o mundo real.
VEST – Até o ano passado, o prêmio era de US$ 50 mil. Agora, elevamos para US$ 100 mil. É o dinheiro necessário para abrir um negócio. Engenharia e tecnologia são parte importante da educação. Mas saber empreender é a chave do sucesso. É o que faz a diferença. Os nossos alunos aprendem os meandros da ciência, mas também técnicas de administração, marketing e comunicação. E tudo em sintonia com o mundo real.
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| “Um dos criadores do Yahoo foi o chinês Jerry Yang. Abertura faz bem aos EUA ” |
PDINHEIRO – Há algum bom exemplo de empresa criada depois desse prêmio?
VEST – Um caso de sucesso é o da Akamai Technologies, que aumenta a performance de grandes empresas no mundo online. Mas não posso deixar de lembrar que o MIT também tem escolas muito reconhecidas em outras áreas, como as de arquitetura e ciências sociais. É possível também ir lá para se doutorar em música ou história.
DINHEIRO – Muitas das empresas que viraram símbolo dessa nova riqueza digital foram criadas por estrangeiros. Qual é o papel deles nesse cenário?
VEST – Basta dizer que o Yahoo teve o Jerry Yang, um chinês, entre seus fundadores. E o Google também teve como fundador o russo Sergei Brin. Isso nos leva a concluir que as pessoas são capazes e inteligentes em todos os lugares do mundo. Basta dar a elas oportunidade, para que os talentos floresçam. Mas é importante lembrar que nem todos pensam em se tornar empresários.
DINHEIRO – Algum exemplo?
VEST – Nessa venda recente do YouTube, os jornais mencionam sempre dois empreendedores. Mas, na verdade, os pais da idéia foram três. Um deles é também um estudante de origem asiática, que se doutorou em Stanford e abandonou a empresa para se dedicar mais aos estudos.
DINHEIRO – Como aquele baterista dos Beatles que abandonou a banda.
VEST – Exatamente. E ele perdeu um bom dinheiro ao deixar o YouTube, mas essa foi sua opção pessoal.
DINHEIRO – Qual o papel dos fundos de investimento ao redor das universidades?
VEST – É crucial. Aqui, essa grande máquina de inovação e geração de riqueza funciona porque, além da excelência educacional, existe uma infra-estrutura financeira. E os grandes investidores estão na Califórnia e em Boston, onde surgem as melhores idéias. Sem os fundos de investimento, isso não ocorreria.
DINHEIRO – Quais são as oportunidades que o sr. enxerga para a ciência nos próximos anos?
VEST – Os jovens têm olhos melhores do que os meus. Mas o que eu diria é que os negócios ligados ao conceito de energia limpa e sustentabilidade ambiental são muito promissores. Além disso, a capacidade de computar e de armazenar informação cresce em velocidade exponencial. E isso dá muito impulso à nanotecnologia, pois permite desenvolver aparelhos eletrônicos cada vez menores, mais leves e mais eficientes. E há coisas que eu não era capaz de imaginar, quando comecei a estudar. Uma delas, o desenvolvimento de materiais a partir de fontes biológicas.
DINHEIRO – A pressão ambiental irá ditar os rumos da indústria no futuro?
VEST – Sem dúvida. No Media Lab do MIT, há um grupo desenvolvendo o carro do futuro. E é um veículo que tem de ser, ao mesmo tempo, mais leve, para ser mais econômico, e também mais seguro. Atingir esse resultado, que é complexo, passa pelo desenvolvimento de novos materiais. Além disso, o mundo hoje enfrenta grandes desafios, como o aquecimento global, a escassez de água e a necessidade de alimentar uma população não apenas maior, como mais rica. E esse pode ser um dos pontos fortes do Brasil.
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| “No etanol, todos estão copiando o Brasil. E vocês devem seguir na vanguarda" |
VEST – Vocês são os líderes globais e devem buscar sempre estar na vanguarda. Uma oportunidade para o Brasil é investir fortemente em pesquisa nas áreas agrícola e de biocombustíveis. Os Estados Unidos hoje estão aprendendo muito com vocês. Há três anos, nós éramos considerados os produtores de grãos de baixo custo no mundo. Hoje, essa posição é do Brasil. E a agricultura é hoje um negócio de altíssima tecnologia.
DINHEIRO – Voltando à educação, o sr. diria que o sistema de ensino superior deve ser público, privado ou misto?
VEST – No nosso caso, funciona bem de forma mista, com uma boa interação entre o público e o privado. E não é possível tratar a educação superior apenas como um simples negócio, porque ele não se pagaria com as suas próprias receitas. O dinheiro que nós recebemos dos alunos permite bancar algo entre 35% e 40% dos nossos custos. Portanto, há necessidade de subsídios, seja através de incentivos diretos ou da filantropia. Se nós fôssemos apenas um negócio, já estaríamos fora do mercado.
DINHEIRO – Qual é o orçamento do MIT?
VEST – Estamos falando de algo entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões por ano. Mas nós também operamos um laboratório aeronáutico para o governo americano, que consome recursos da ordem de US$ 750 milhões.
DINHEIRO – Qual é a política de bolsas para estudantes?
VEST – Nós temos uma política que chamamos de admissão cega e isso nos orgulha. Ou seja, nós escolhemos nossos alunos sem nenhuma informação sobre a capacidade financeira de suas famílias. O único critério é o mérito. E, depois da admissão, a ajuda é proporcional à necessidade real de cada aluno. Portanto, não concedemos bolsas integrais. E muitos alunos recebem empréstimos para que possam completar seus estudos. Eles reclamam do custo desses empréstimos, mas sempre pagam.
DINHEIRO – Será por isso que eles abrem tantas empresas quando saem das universidades?
VEST – É o que dizem lá também.




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